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«Quantas pessoas podem dizer que treinam no clube onde já jogaram desde os sete anos?» – Entrevista BnR com Nuno Manarte (Parte II)

Podes consultar a primeira parte da entrevista AQUI

– Primeiros passos como treinador – 

Bola na Rede [BnR]: Nessa mesma temporada de 2012/2013, primeiro ano como adjunto, ficaste logo treinador principal da equipa de sub-20?

Nuno Manarte [NM]: Sim nesse ano fiquei como treinador de sub-20, na altura a equipa sénior tinha seis jogadores que só treinavam na equipa sénior. Foi um ano de mudança, sem estrangeiros, o único estrangeiro que tínhamos era o Sergi, que era praticamente de Ovar. Havia muitos jogadores de sub-20, tínhamos um treino por semana em que subíamos alguns juniores (para sub-20), e jogávamos à quarta feira. A minha primeira experiência como treinador foi treinar os sub-20, basicamente uma equipa dos seniores, mas com alguma malta mais nova a treinar só a parte, não é com um treino e um jogo. O meu primeiro jogo em Fides, Gondomar, estava mais nervoso do que provavelmente a primeira vez em que joguei.

BnR: Nesse ano chegaste ainda a fase final Nacional de sub-20.

NM: Tínhamos uma boa equipa nesse ano, com muito mérito do Carlos Pinto, um plantel português e a equipa nesse ano atingiu um nível bastante superior ao esperado. A equipa era muito boa, tínhamos o Manú, o Júlio, o Pedro Costa, Pedro Soares, o Fião, jogadores que depois de uma forma ou outra já ajudavam na equipa sénior. Também haviam outras equipas interessantes como o Porto, o Benfica e conseguimos ir à fase final em Lisboa com o Porto, o Algés e o Benfica, o que já foi interessante para o primeiro ano.

BnR: Ficaste então a conciliar o trabalho de treinador das camadas jovens de Sub-20, seguiu-se os sub-16 B e depois ficaste ainda a treinar sub-18. Como foi conciliar o trabalho de treinar equipas jovens e ao mesmo tempo ser adjunto de uma equipa sénior?

NM: Não vejo grandes problemas, o que custou foi começar. Isto porque competi muitos anos. Vejo o basquetebol de uma forma muito profissional e competitiva. Para mim basquetebol é sinónimo de competir. Tinha claro que, como treinador de formação, o teu objetivo tem de ser outro. Não acho que o objetivo não seja competir, competir é importante. Mas há que ensinar porque é que é importante competir, ninguém ensina os jovens a perder. Acho que é importante ensinar aos jovens os valores de competir, os valores do basquetebol e os valores da vida, os valores de equipa, os valores individuais, quer pessoais quer em termos técnicos e tácticos, os valores de crescimento de cada um deles. Mas não podes pôr de parte o valor da competição, que é algo natural no ser humano. Tu desde miúdo que já competes porque queres ser o melhor, competes com o teu irmão. Agora, temos que pôr as coisas em patamares diferentes e essa foi a minha dificuldade, pois eu vinha de muitos anos a competir ao mais alto nível, em que ganhar era o mais importante. A treinar sub-20 podes pôr as coisas da mesma maneira, mas quando fui treinar sub-16 B esse foi o primeiro impacto. Aí treinei, talvez possa dizer miúdos em que alguns deles hoje jogam comigo, pela Ovarense, como é o caso do Francisco Oliveira. Tinham, portanto 14 ou 15 anos, e tive esse impacto de sub-16 B em que não competem, os jogos são fracos pois não há competições de sub-16 B e a ideia era mais que eles crescessem e evoluíssem para que no ano a seguir fosse um ano forte para eles. Tentar ter esta visão quase nada competitiva, isso é que foi desafiante. Íamos para os jogos jogar com o “campinho C”, é uma brincadeira claro, mas nos jogos o importante era eles jogarem todos e ter experiências em que construíssemos algo. O que numa primeira fase foi muito aborrecido para mim porque faltava-me a competição, ter impacto no jogo e não havia nada disso, era quase como se fossemos treinar.

BnR: E foi isso que mais custou?

NM: Custou-me no início, mesmo nos treinos mudar o chip lidar com a falta de competitividade. A verdade é que ao longo dos tempos me fui ajustando e, apesar de eu saber que era a forma correta de estar com essa equipa nesse ano, depois era uma revolução interna. Pensava “Se calhar não é isto que eu quero, eu quero é competição, quero poder trazer miúdos e colocá-los a jogar e a jogar para ganhar”, mas sabia que não era isso que era suposto fazer. Mas tinha momentos de revolta interior, que me faltava a competição e aquilo não me servia, queria algo mais. Mas depois também era pacifico, entrava no treino, identificava-me, mudava o chip e era a dificuldade de vir dos seniores para treinar sub-16 B, imagina a mudança.

BnR: Era uma mudança drástica.

NM: É praticamente o oposto, mas pronto lá me adaptei, pois era meramente ensinar o Basquetebol. A verdade é que nem toda a gente que joga basquetebol depois sabe ensinar e essa também foi a dificuldade para mim. Eu pedia um passe e corte e partia da ideia que toda a gente sabe o que é e depois ficava chateado com estas coisas e dizia “Então disse-te para tu cortares e tu não cortaste?” e era “Mas o que é cortar?”. Isso é que era ensinar o jogo. Era tu perderes tempo para que os jogadores aprendam aquilo que estás a dizer e aquilo que queres fazer. O que é diferente do que jogar, uma coisa que para mim é certo, nem para toda a gente é certo. Tu tens de ensinar tudo aquilo que vais fazer. Para mim é a grande dificuldade de seres treinador, ainda para mais ser treinador de formação. É muito, muito difícil, percebi que jogar ao mais alto nível não era o suficiente para treinar uma equipa de sub-16 B. Tinha de me formar, continuar a estudar, a ver coisas e a pedir informações. Na altura uma pessoa que me ensinou muito foi o João Candeias (treinador sub-14), sentei me muitas vezes com ele a perguntar o que ele fazia. E ele explicava-me todas as especificidades dos miúdos daquela idade. “Atenção que os gajos um dia vão te chegar super desconcentrados. Não te zangues com eles, às tantas é porque tiveram um mau dia na escola ou receberam uma nota má”, “Aquele rapaz é assim e assim”. Havia uma série de especificidades muito interessantes, mesmo o tipo de jogo, jogar por conceitos em vez de jogadas. Na altura aprendi muito com ele. Foi uma transição grande passar de sub-20 praticamente seniores para sub-16 onde tinha de ensinar o jogo. A verdade é que eles ao longo da época cresceram bastante e a malta dizia “Como é possível? Eles já estão com um nível!”, o que foi bom e gratificante.

BnR: Começares a treinar miúdos também deve ter sido algo impactante para eles porque de repente viram-se a treinar com um ícone de Basquetebol em Ovar. Sentias essa parte a influenciá-los como treinador?

NM: Sentia as duas fases. A fase inicial do encantamento de treinares com o teu ídolo, porque eu também já fui treinado por um dos meus ídolos, o Mário Leite em mini-basquete. Mas também existe a desilusão. Ao fim de dois ou três meses a treinar e eu também tive disso. Porque por ter esta visão tão competitiva lembro-me que no caminho também fiz asneiradas, tomei decisões ou tratei pessoas de uma forma que, se calhar, pode ser o calor do momento, mas sei que não o deveria ter feito. Mas é um processo e faz parte de todo esse processo de aprendizagem e sei que no caminho também desiludi pessoas. Também tive pessoas que me escreveram cartas a dizer que saíam por não lhes dar oportunidades porque eu também não podia dar oportunidades a todos. Quando falamos de juniores já não é mini-basquete e não podemos dar oportunidades a todos. Já é o último escalão competitivo e tens muitos dissabores no caminho. A verdade é que esses ficam mais que os outros, as tuas intenções são as melhores possíveis, provavelmente nem sempre as exprimi da melhor maneira. Também precisava de uma aprendizagem, que só se faz com erros. Também não tive problemas em pedir desculpa quando achei que errei, não vejo um treinador estando num pedestal acima das outras pessoas, mesmo treinando malta mais nova. A verdade é que achei que tinha esse impacto quando treinava malta mais nova e que me tinha visto a jogar, que é uma responsabilidade muito grande já que não podes desiludir essas pessoas que te vêm de uma forma especial. Mas depois tem outra vertente que é que tu não podes errar, tu és especial e tu não podes errar porque já jogaste 20 anos e não podes errar, o que é mentira. Estás num patamar diferente, são coisas diferente e num período de aprendizagem diferente. Isso foi marcante para mim, no meu percurso como treinador, viver todas essas experiências, umas boas outras menos boas, tentar aprender com isso.

BnR: Mais coisas boas ou más?

É óbvio que houve muito mais coisas positivas, mas marcam mais as menos boas, porque sentes que tiveste um impacto negativo na vida das pessoas mesmo quando não querias fazê-lo. O processo de chegares ao início da época e teres 24 jogadores a querer integrar a equipa e teres de dizer a cinco ou seis que eles não podem continuar, numa situação que é uma questão social, mas a verdade é que um treinador não pode treinar 24 jogadores. Havia 18 e desses 18 uns treinavam à segunda e outros à terça e depois a vida trata de que as coisas se resolvam de uma forma natural. Os que não correspondem às expectativas saem, os que se sentem incapazes acabam por sair, mas também há os casos pontuais em que as pessoas não compreendem. Sempre tive o cuidado de explicar as coisas às pessoas e como é que iria ser, a verdade é que as pessoas sempre tiveram oportunidades. Agora chega uma altura em que se afunila um pouco as decisões. Mas pronto, foi um período muito bonito em que aprendi muito e cresci muito também. Treinar formação é diferente de treinar seniores, e o Sona (adjunto de Seniores a certo ponto), disse-me uma vez “Eu achei que os problemas aqui com gente crescida nos seniores fossem completamente diferentes dos problemas que eu tive na formação, mas olha, são muito parecidos“.  Se pensares bem somos todos humanos e os problemas acabam por ser os mesmos. Talvez quando és mais jovem exponencias um pouco mais, mas é egoísmo, a má postura ou a má educação sabes? Os egos existem quando tu tens 16 ou 25 anos, mas é exponencial, alguns problemas são mais ou menos toleradas, mas acabam por ser os mesmos. E não deixou de ser tudo de ser uma aprendizagem, seja lidar com os juniores ou com os seniores não deixa de ser lidar com pessoas e lidar com pessoas é das coisas mais complicadas e complexas da vida. São 15 pessoas com personalidades totalmente diferentes. Num ano conseguia corrigir imensas coisas para o ano a seguir e não voltar a cometer o mesmo erro no ano a seguir e essa é a capacidade que existe de crescimento.

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