Visão de Mercado

O Engenheiro dos Milagres

Portugal. Apesar de pequenos e com pouca população, somos um país que historicamente realizou grandes feitos, a todos os níveis. Centrando só no jogo mais belo, vemos uma história riquíssima. Um país que conta com 4 Taças dos Campeões Europeus. Um país que conta com clubes históricos, finalistas das diferentes provas da UEFA, lutando sempre contra clubes com outro poderio económico. Apresentamos, ao longo dos nossos pergaminhos futebolísticos, alguns dos maiores intervenientes que este desporto já viu. Gerações de jogadores marcantes, míticos e que tocaram o Olimpo deste desporto, diversas vezes. Eusébio, Futre, Figo, Rui Costa, Fernando Gomes, Coluna, Ronaldo entre tantos outros. Pelos bancos passaram inúmeros treinadores, cada um referência da sua época, desde Pedroto a Mourinho. Podemos dizer que de facto temos uma criatividade, um sentido estratégico e de compreensão de jogo superior à média dos restantes países. O que poderíamos fazer com um campeonato com a capacidade financeira de outros, ou então o que poderíamos fazer com uma população de 40/50 milhões de pessoas? Mas, como se costuma dizer, as coisas são o que são e não aquilo que nós gostaríamos que fossem. E neste sentido, a nossa seleção nacional parecia sempre aquém dos feitos dos nossos diversos intérpretes. Até 2000 as fases finais eram uma raridade, mas depois da mudança de milénio, apesar de nos habituarmos a ver a nossa seleção sempre presente, parecia que faltava sempre qualquer coisa. E os títulos permaneciam uma miragem nas vitrines vazias da FPF. Até que chega Fernando Santos para o cargo de selecionador e tudo mudou.

Durante o dia de ontem, o Engenheiro tornou-se no selecionador com mais jogos à frente da seleção nacional. E o seu percurso tem sido absolutamente notável. Paris marca a estreia, o ponto mais alto e momento do recorde, em três atos que definem bem este percurso. São 75 jogos ao longo de 6 anos. Apenas 11 derrotas, sendo que 8 delas foram em particulares. O mesmo é dizer que em 6 anos perdemos apenas 3 jogos oficiais. Neste mesmo período, vemos que por exemplo (apenas jogos oficiais): a Espanha perdeu 5 vezes, a Alemanha perdeu 8, a França perdeu 4, a Itália perdeu 4, a Holanda perdeu 12, a Inglaterra perdeu 7, a Bélgica perdeu 6. Importa referir que nenhuma destas seleções tem sequer mais jogos oficiais que Portugal neste período.

Ainda durante estes 6 anos, percebemos que tem sido feita uma transição com enorme sucesso da seleção nacional. Com o jogo de Rúben Semedo frente à Espanha, são já 43 jogadores que tiveram a oportunidade de usar a camisola das quinas, sendo que aqui não incluímos jogadores que já tiveram a oportunidade de integrar estágios, ainda que sem minutos de competição. Aquando do Euro 2016, Fernando Santos trouxe também outra novidade, o discurso. Uma variável tantas vezes esquecida, mas tantas vezes fundamental. Na verdade, não tenho memória de um selecionador que mal tenha garantido a qualificação para o torneio, tenha dito de forma tão direta e clara que ia a França para trazer o título, um contraste tão grande com o clássico: “vamos fazer o nosso melhor, irmos jogo a jogo e vermos até onde podemos chegar”. Fernando Santos tornou na cabeça de todos os jogadores a realidade do sucesso, que tantas vezes não passava de um sonho longínquo. Por muito que não se goste do estilo, ou das escolhas, o mérito de Fernando Santos é inegável. Ao contrário de outros países, é muito difícil para Portugal ter uma espinha dorsal, com automatismos trabalhados. Vemos que muitos jogadores jogam em clubes diferentes, sendo que para conseguir colocar 3 jogadores de uma mesma equipa em campo é muito complicado. Neste sentido, Fernando Santos tem tido o mérito de conseguir apresentar um futebol consistente, ainda que, muitas das vezes, pouco espetacular.

Mister, tal como referiu, falta-lhe o mundial. Esta geração permite-nos sonhar. Praticamente todos jogam em clubes competitivos e de exigência máxima (praticamente todos da seleção A e muitos dos sub-21). Daqui a dois anos, todos estes jogadores contarão com uma maturação competitiva ainda maior. E provavelmente será o último mundial do nosso melhor jogador de sempre. Por isso, por favor, sonhe. Sonhe como em 2016, para que possamos sonhar consigo também. E para que em 2022 toquemos todos ainda mais alto. Mesmo que isso não aconteça, apenas nos restam palavras de gratidão. Ficará para sempre na memória de Portugal e do nosso futebol. Mais que o Engenheiro do Penta, será recordado como Engenheiro dos Milagres.

Visão do Leitor: Santander

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