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«Não vai demorar muito para o SC Braga ser campeão» – Entrevista BnR com Paulão

A conversa começa com uma indecisão entre o “bom dia” e o “boa tarde”. De um lado ao outro do Atlântico, a distância faz-se também nas horas. Mas começa-se a falar de futebol e tudo isso fica esquecido, especialmente porque do outro lado da chamada está um interlocutor de excelência. Um defesa central de destaque em Portugal e Espanha durante muitos anos, Paulão tem muito para contar e, acima de tudo, cativa-nos com a abertura e sinceridade com que aborda todos os temas.

-Início de carreira e as grandes diferenças entre a filosofia da Europa e do Brasil-

«Era Primeira Divisão, Primeira Liga e tudo, mas eu precisava de voos maiores»

Bola na Rede: Começando, lá está, pelo início, como surgiu o futebol na tua vida?

Paulão: Eu costumo dizer que foi mais por vontade do meu pai. Na minha família, um tio já foi também jogador profissional e, na verdade, eu comecei a ter interesse já um pouco mais velho. Eu já tinha 15 anos quando comecei a treinar nas equipas daqui do Brasil e, então, acho que foi um pouco de influência do meu tio e mais do meu pai, que é fã de futebol mesmo e queria a 100% que eu fosse um jogador profissional.

Bola na Rede: Nessa altura, tinhas algum outro sonho, além de ser jogador de futebol?

Paulão: Não, na verdade o que queria realmente era divertir-me , era aproveitar a infância… Porque no Brasil, antigamente, as crianças iam pelas calhes. Eu brincava, corria, fazia o que eu queria. Na verdade, eu não queria esse compromisso de 100% dessa disciplina, de ter de treinar isso ou aquilo. Realmente, eu queria aproveitar. Aproveitar essa infância o máximo possível. Se eu dissesse que queria ser jogador de futebol, estava mentindo. Eu realmente deixei as coisas andar. Se fosse mesmo a vontade de Deus, ia acontecer naturalmente. E eu deixei que acontecesse. É exatamente o que passo hoje para o meu filho: eu deixo-o fazer o que ele realmente quer. Eu fiz algo por influência do meu pai. Hoje eu agradeço-lhe, porque ele insistiu tanto que eu consegui fazer uma carreira considerável para mim… Na minha opinião, muito boa.

Bola na Rede: E acabaste por te estrear bastante jovem no Atlético Mineiro, mas depois estiveste algum tempo no qual ficaste um pouco de lado e até acabaste por mudar de equipa. Como geriste o facto de te estreares tão jovem, mas depois estar uns tempos sem jogar na equipa principal?

Paulão: Na verdade, as coisas na minha vida aconteceram muito rápido depois que eu ingressei no Atlético Mineiro. Eu cheguei no Atlético Mineiro com 14 anos, e com 17 já estava estreando no profissional. Como vim duma família muito humilde, em três, quatro anos as coisas mudaram completamente. Comecei a aparecer nas televisões, as pessoas começaram a falar, num bairro tão pequeno, numa cidade tão pequena onde eu vivo… Para mim, foi do zero ao 100%. As coisas aconteceram muito rápido. Eu tinha uma estrutura da minha família, mas eu não consegui, como se diz, segurar essa empolgação. As coisas aconteceram muito rápido, muito dinheiro, isso, aquilo. Eu deixei-me levar um pouco mais pelo meu orgulho em dizer “hoje eu já sou jogador, já sou atleta”, e deixei um pouco de lado de me dedicar e de perseverar de, com 17 anos, a oportunidade está aí, eu preciso me dar mais. Não que eu não treinava, mas é assim,… você sabe como são os jovens, deixa-se levar, talvez pelas coisas extra-campo. E, no Brasil, é constante a troca de treinadores, então, aquele que treinador que me deu a oportunidade, com três ou quatro meses já não era o mesmo treinador, já veio outro treinador, com outra metodologia, outro modo de pensar e eu não consegui segurar e foi assim, esses altos e baixos até eu mudar de equipa.

Bola na Rede: Aproveitando que falaste dessa questão dos treinadores, essa é uma das grandes diferenças da Europa para o Brasil, este ano o Brasileirão vai na 10.ª jornada e já foram sete que saíram. Notaste essa diferença e quais são os principais efeitos que isso tem nos jogadores?

Paulão: Isso para o jogador é ruim, porque o jogador precisa de uma estabilidade, de uma segurança, não só do clube, mas também do treinador. O Jorge Jesus passou agora pelo Brasil aqui, ficou um ano, colocou as suas ideias, colocou o Flamengo a jogar da forma que ele acreditava e as coisas correram bem e, agora, com pouco tempo veio outro treinador e as coisas já não estão caminhando bem, porquê? A gente não sabe porquê, só que cada treinador tem a sua metodologia de trabalho, então, aqui no Brasil a gente costuma dizer, e é assim que acontece, que é mais pelo resultado, não pelo trabalho. Então, tem influência dos adeptos, dos patrocínios, porque precisa de resultado e não tem essa estabilidade igual que na Europa. O exemplo do Liverpool, demorou quatro anos para conquistar um título importante, aqui no Brasil, não, infelizmente, com dois, três ou quatro meses, tem que trocar talvez, não sei, para dar uma justificação para os adeptos, para os patrocinadores. Acho que, para os jogadores, isso é muito ruim, porque a gente não sabe se daqui a dois, três ou quatro meses vai ser o mesmo trabalho, o mesmo treinador, então fica oscilando muito. No Brasil não tem isso, na Europa é perfeito, a gente sabe que as coisas vão correr e a gente vai ter tempo de adaptar, de assimilar a maneira do treinador.

Fonte: UEFA.com

Bola na Rede: Voltando à tua carreira, segue-se a Naval. Como surge essa oportunidade de vir para Portugal?

Paulão: Eu estava no Gama, estava disputando o Campeonato brasileiro da Segunda Divisão e, se não me engano, com 10 jornadas, o António Teixeira na época me ligou dizendo que havia essa oportunidade de ir para a Naval. Sinceramente, não conhecia na época, não conhecia a Naval, não conhecia Portugal e o campeonato português. Conversando com esse tio meu que na época era jogador também, eu não queria ir, porque estava fazendo um bom campeonato e já tinha alguns clubes grandes aqui no Brasil sondando e especulando a minha ida, e ele chegou para mim e disse “olha, é a oportunidade de você fazer carreira em Portugal, na Europa, você pode fazer uma carreira brilhante lá, porque você tem qualidade e você aqui no Brasil não sabe porque de quatro em quatro meses você não sabe o que vai acontecer e na Europa é diferente. Eles estão te dando a oportunidade e com a sua qualidade você com certeza vai dar saltos maiores lá” e foi por aí que eu decidi ir para a Europa, ir para a Naval, sabendo das condições da Naval, mas a partir daí com objetivo de ficar na Naval e dar uns saltos maiores.

Bola na Rede: E lá está, chegou à Naval e rapidamente assumiste-te titular e fazes três épocas de muito sucesso.

Paulão: Sim, mas o meu objetivo, na verdade, não era ficar os três anos ali, porque eu já era considerado um exemplo, como um jogador já com 24 anos, então, não podia ficar três anos na Naval. Com todo o respeito pela Naval, mas a Naval é considerado uma equipa com pouca expressão em Portugal na época. Era Primeira Divisão, Primeira Liga e tudo, mas eu precisava de voos maiores. Então, até quando assinei o contrato de três anos, o meu objetivo era sair logo no primeiro ano, mas também não sabia que o Presidente – o Aprígio na época – era tão difícil assim, então ele me segurou o máximo. Tive de esperar os três anos. Todos os anos tinha proposta para sair, mas ele nunca me liberava, mas não me arrependo também.

Bola na Rede: E foi também na Naval que começaste a marcar golos.

Paulão: Sim, porque aqui no Brasil não conseguia fazer golos de jeito nenhum. Não sei o que acontecia, a bola sobrava, tinha oportunidade e nada… E foi na Naval que comecei a marcar golos e aí todas as equipas, todos os campeonatos, eu conseguia me destacar como o central goleador.

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