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Jogo Interior 26# – Futebol de elites: quanto ganha um treinador?

Hoje, na rubrica de Jogo Interior, falo-vos de um futebol de elites dentro da classe de treinadores. Todos conhecemos a realidade atual do futebol e das quantias exorbitantes que movem esta modalidade seguida por tantos, daí talvez os valores que cada vez mais pautam o dia-a-dia de quem está inserido no topo deste meio. Os interesses económicos vindos dos poderosos homens do médio oriente, maioritariamente, trazem todas as épocas uma maior capacidade financeira aos “sortudos” clubes que calham neste caminho, criando um impacto avassalador no valor das transferências mediadas e contratos que têm vindo a ser assinados.

Tudo isto influencia a tendência do mercado futebolístico e a ainda maior sobrevalorização de tudo o que acontece nesta modalidade face à realidade do que se passa na vida de qualquer indivíduo dito “normal” na nossa sociedade. E é aqui que entra a pergunta enunciada no título deste artigo: quanto aufere um treinador de futebol? Será que é conhecida, verdadeiramente, a realidade do treinador de futebol em Portugal? É o que vamos descobrir no Jogo Interior de hoje.

Estará a sociedade apenas a olhar para o que acontece apenas ao mais alto nível desta realidade, uma pequena gota num enorme oceano? Acredito e receio bem que sim. O documento “Contrato Coletivo de Trabalho celebrado entre a Liga Portuguesa de Futebol Profissional e a Associação Nacional de Treinadores de Futebol” da época 2014/15, disponível no site da Liga da entidade que tutela o futebol profissional de Portugal refere as condições relativas aos contratos dos treinadores de futebol.

Passo a citar a 31.ª cláusula que delineia a remuneração mínima destes profissionais tendo em conta as divisões em que estão inseridos. “Cláusula 31.ª Remuneração mínima 1. Aos treinadores principais são assegurados as seguintes remunerações base mínimas, quando exerçam as suas funções em clube da: 1.ª Liga Profissional — oito vezes o salário mínimo nacional; 2.ª Liga Profissional — quatro vezes o salário mínimo nacional; II Divisão Nacional B — três vezes o salário mínimo nacional; III Divisão Nacional — duas vezes o salário mínimo nacional; Outras divisões e escalões juvenis — uma vez o salário mínimo nacional. 2.

Aos treinadores-adjuntos é assegurado, como remuneração base mínima, metade dos montantes estabelecidos no número anterior para os treinadores principais de cada divisão.” Tendo em conta o que aqui está delineado para o futebol profissional em Portugal, é fácil perceber que, idealmente, o treinador principal de futebol receberia o idêntico ao salário mínimo nacional. Porém sabe-se perfeitamente que não é assim que se passa e se gere esta situação no nosso país.

Um recém licenciado em Educação Física e Desporto ou em Treino Desportivo sai habilitado com o equivalente ao nível I (UEFA C). O que seria de esperar? Que a partir do momento em que se licencia possa exercer única e exclusivamente aquilo para o qual estudou durante, na melhor das hipóteses, três anos, tal como um médico, um engenheiro, um psicólogo, ou um outro qualquer profissional licenciado “perde” tantos ou mais anos da sua vida para que esteja o mais bem preparado possível a todos os níveis para o exercício da sua função.

No entanto, quando este a pretende iniciar, depara-se com vários problemas que condicionam e limitam a sua entrega total à sua profissão. Compensações financeiras de 50€/100€/200€/250€ para exercer a função de treinador principal de futebol não permitem que qualquer indivíduo que seja consiga ter as condições básicas para ter uma vida normal e saudável. No futebol de formação, no futebol sénior distrital e até mesmo em alguns clubes que militam no Campeonato de Portugal o treinador de futebol não consegue ser profissional a tempo inteiro, tem de ter um emprego para além daquilo para o qual estudou.

Considera-se isto um problema? Na minha opinião, sim. Se não nem sequer falaria disto na rubrica de Jogo Interior. Mas não existe tratamento nem preocupação das entidades responsáveis em tentar perceber quais as causas para que se encontre uma espécie de solução, pelo contrário, são estas instituições que as criam. A desigualdade na formação do treinador. Uma das principais causas prende-se com as diferenças existentes no tempo e na forma como os treinadores de futebol se formam enquanto profissionais do desporto.

Enquanto, alguns necessitam de três anos de investimento temporal e financeiro para concluírem um curso que lhes permita obter o nível I de grau de treinador de futebol, outros, através dos cursos das várias associações e da federação, necessitam de apenas dois anos ou até alguns cursos de algumas empresas exigem apenas seis meses de teoria com um ano de estágio. Para além disto, ainda existe o problema do exercício da função de treinador sem qualquer formação para tal.

A ausência de uma “ordem dos treinadores” aproximando à medicina, a ordem dos médicos tutela e tem um poder de jurisdição que define e regula o acesso e o exercício da profissão, representa e defende os interesses médicos, concede o título profissional, exerce o poder disciplinar sobre os médicos, participa na elaboração de legislação que diga respeito ao acesso e exercício da profissão médica, participa nos processos oficiais de acreditação e na avaliação dos cursos que dão acesso à profissão médica, entre outras atribuições possíveis.

Não será necessário enunciar a ligação ao treinador de futebol. A ausência do espírito de “grupo profissional” nos treinadores Uma vez que impera o espírito de cada um por si e salve-se quem puder entre a maioria dos treinadores, esperando que alguns fracassem para outros aproveitarem, ou alguns exijam para outros abrirem mão e assim tomarem o lugar do primeiro, existe uma enorme falta de espírito de grupo que fortaleceria a profissão concedendo-lhe o tal poder de jurisdição já referido no ponto acima. Todos têm de “falar a mesma língua” e remar no mesmo sentido para desenvolvimento da profissão e não o contrário como é feito.

A generalização leva à desvalorização? O futebol é, sem dúvida alguma, a modalidade mais praticada mundialmente e Portugal não é exceção. Poderá a enorme quantidade de participantes e de entidades desportivas levar a que o poder económico em grande parte destas seja escasso e reduzido para o que seria adequado, para que os treinadores recebessem aquilo que merecem como profissionais a tempo inteiro que deveriam ser? Infelizmente, creio que sim.

A popularização do futebol leva, como quase tudo o que é realizado em massa, à diferenciação entre os intervenientes, a criação de pólos distintos em relação a poder económico, ideias e valores é inevitável e isso não é favorável ao assunto em questão. Uma realidade difícil e dura de alterar. Ainda assim, é importante “tocar na ferida” e este tema no Jogo Interior desta semana é importante por isso mesmo.

Em suma, a realidade em que os treinadores se encontram é cruel e resistente a alterações a curto e médio prazo. Ao mais alto nível, o treinador de futebol aufere quantias exorbitantes, ao nível dos jogadores de futebol, no entanto, no pólo oposto, há quem tenha diariamente um trabalho durante oito horas e à noite, por amor, ambição e força de vontade, vá exercer a função com a qual se identifica e para a qual se preparou a troco de quase nada, mais de aprendizagem e desenvolvimento que de outra coisa. 

Existem problemas e causas enunciadas em cima que desvalorizam a profissão, que a tornam menos bem vista aos olhos da sociedade e isso coloca em causa as possibilidades de desenvolvimento e crescimento, de tornar esta uma profissão de excelência para todos e não só para alguns. Há possibilidade de alterar este panorama, no entanto, creio que a muito longo prazo e até lá, obrigatoriamente, o amor e o encanto pela modalidade servirão de alimento que dará a muitos a força para continuar desta forma. E por isso mesmo falo-vos sobre este problema na rubrica de Jogo Interior desta semana.

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