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«Em Portugal precisamos de mais pessoas como o Carlos Carvalhal e como o Bruno Lage» – Entrevista BnR com José Ribeiro Meditar

“Quando tens algum problema na vida, o foco tem de ser a solução”. Foi assim que José Ribeiro-Meditar encarou o maior desafio da sua vida: uma queda de sete metros que o deixou paraplégico e lhe mudou a vida para sempre. Com uma história de vida assente na superação, José Ribeiro preparou-se para a entrevista como para uma sessão de treino e, com uma linha de pensamento bem vincada, abriu o livro revelando os “segredos” de quem já treinou em todos os contextos e de quem está habituado a ganhar já muito antes do acidente. O cérebro foi a palavra que nos acompanhou ao longo da entrevista e, para além de ser a coisa mais importante que possui, é também o nome do seu próximo livro. Partilha o gosto pelo treino, com a filosofia e a poesia e admite ser fanático pelo conhecimento, pela descoberta e pela superação. Ainda antes do apito inicial da entrevista, José Ribeiro pediu a palavra e iniciou assim a partilha de conhecimento. Não percam!

José Ribeiro-Meditar: Jogadores diferentes vêm coisas diferentes em situações iguais. Aquele que vê mais e melhor é o que tem mais possibilidade de fazer a coisa certa no momento exato. A começar por aqui já te estou a falar sobre qual é a minha linha de pensamento. É uma metodologia de treino assente na especificidade, nos comportamentos e padrões do comportamento, na relação entre as componentes cognitivas, tático-técnicas, físicas e coordenativas. Os conceitos vão desde os rondos (meiinhos), jogos de posição, espaços reduzidos, jogos de situação, jogos de intenção, intencionalidade global e balizas, sempre em relação à bola. Não é apenas um jogo posicional. É um jogo em que tenho de saber onde e como me situar em campo em função do sítio onde está a bola.

Bola na Rede: Vou começar já por aí, pela bola. Porque é que para ti a bola é o melhor brinquedo do Mundo?

José Ribeiro-Meditar: Porque eu através da bola consigo falar de religião, política, de culturas, de tudo. É isso que a bola tem de fantástico. Mexe com as emoções e cria momentos. Sem a bola nós não estávamos agora aqui os dois a falar. Seja o contexto que eu estiver a treinar ou a ensinar, para conhecer um miúdo que eu estou a treinar, tenho de conhecer o contexto familiar e social dele. Até na formação já começas a ver miúdos a vir de outros países e de outras culturas e eu tenho de perceber a cultura deles. Tenho de conhecer os padrões de comportamento deles.

Fonte: Arquivo pessoal de José Ribeiro-Meditar

Bola na Rede: O José tem um histórico como treinador muito direcionado para o futebol de formação. Que importância atribuis à formação?

José Ribeiro-Meditar: Eu até gostaria de ir mais longe, se me permitires. O desporto de formação é a coisa mais importante que nós temos. E quando falo de desporto, vou às modalidades todas. Claro que a modalidade rainha em Portugal é o futebol e a segunda modalidade com mais influência é o futsal. Há comportamentos e padrões de comportamento de outras modalidades no futebol. Na elaboração de um exercício tens o espaço, o tempo e a intensidade. Depois tens cinco componentes que vais trabalhar: a parte estratégica, a parte do foco/psicológica, a parte tática, técnica e física/capacidades motoras. Eu tenho 15 mandamentos em que tu podes ir buscar de uma modalidade e trazer para a tua modalidade. Eu vou-te mandar isso:

Comportamentos e padrões de comportamentos de outras modalidades no futebol:  (Estratégia / Foco / Tático / Técnico / Capacidades motoras)

  1. Boxe: técnica e duelos individuais
  2. Andebol: tática e marcação à zona
  3. Basquetebol: tática e marcação individual
  4. Râguebi: tática e bolas paradas
  5. Futsal: transição do terceiro e quarto momento
  6. Futevólei: técnica e jogo aéreo
  7. Golfe: técnica de remate
  8. Damas: organização ofensiva e defensiva
  9. Xadrez: estratégica, pontos fortes e fracos do adversário
  10. Ténis: motivação, superação, mente e tomada de decisão
  11. Voleibol: time out
  12. GOES: físico + mente = regras
  13. Futebol Americano: posicionamento estrutural
  14. Atletismo: técnica e tomada de decisão na condução
  15. Desportos de combate: liderança

Gosto de brincar com isto, é o meu passatempo que depois vai dando uns livros e artigos científicos. Na minha opinião os miúdos até aos sub-12 deviam praticar outras modalidades, não só o futebol. Tu nestas idades tens que dar aos miúdos o prazer de praticar outras modalidades. Tens o Bayern de Munique, em que, não sei se vai ser neste ou no próximo ano, os miúdos até aos sub-11 não vão jogar só futebol, vão ter outras modalidades. Estou inteiramente de acordo e tu consegues trazer isto. Por exemplo, se tivermos um amigo ligado ao andebol, convidamos essa pessoa para ir dar uma aula de andebol, nem que seja uma vez por mês.

Bola na Rede: “Um miúdo, quando termina um dia, sai do treino, o pai vai buscá-lo e a primeira coisa que o pai pergunta é como correu o treino. O pai não pergunta como é que correu a escola”. Recupero esta citação do Luís Castro para te questionar como é que se educam os pais?

José Ribeiro-Meditar: Eu costumo dizer que há quatro itens de avaliação num treinador ou num coordenador técnico. São as competências tático-técnicas, liderança, as relações humanas e a comunicação. Focando na formação, nos miúdos mais novos até aos sub-13, os pais têm que fazer parte do processo e o grande problema é que eu não posso educar sem formar. Como é que eu posso formar um atleta se primeiro tenho de educar uma criança? Um pai é a mesma coisa. O treinador deve ter uma comunicação aberta, deve haver relações humanas entre os pais e o treinador e devemos estabelecer desde logo regras. Vou te dar um exemplo, este ano tive com os miúdos dos 9 aos 10 anos e eu impus pequenas regras, uma delas era que os miúdos tinham que deixar o balneário da equipa adversária limpo. Outra regra, o papá e a mamã não vão vestir o menino lá dentro e os meninos com seis e sete anos já sabem apertar os atacadores, não tem que ir lá o treinador. A minha filha também anda na escola e eu prefiro que ela tenha um professor educador do que um professor formador. Um professor que incute regras e não um professor autoritário. Também sou a favor dos treinos à porta fechada, é como as aulas que também são à porta fechada e sou a favor de que haja comunicação entre os professores e os pais, explicar tudo e dizer quais são as regras. Os pais devem fazer sempre parte do processo. Por exemplo, eu se tiver a treinar uma equipa de juvenis, juniores ou seniores, eu não faço convocatórias em papel. Se eu tiver um escalão com 23 atletas, os 18 que eu convoco digo cara à cara. Se houver algum que pergunte porque não foi convocado eu respondo logo “Tu não foste convocado porque no treino desta semana, neste espaço aqui, tu não tiveste presente”. Olho no olho, cara à cara. O treino de futebol são aulas e durante a semana trabalho os sete momentos de jogo. O sexto momento é o penalty e o sétimo momento do jogo é as equipas de arbitragem. Os meus atletas estão completamente proibidos de falar com os árbitros. Eu costumo dividir o clube de futebol em três partes: o presidente, que é o dono do clube, o balneário, que é dos atletas e depois temos o retângulo do campo, o jogo e isso é do treinador. Se eu não falo com o árbitro e não insulto árbitro nenhum, nenhum atleta meu vai insultar os árbitros. Eu não posso defender certos princípios do futebol e depois ser incoerente com essa maneira que eu defendo.

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